Como começou essa amizade, não sei. Só sei que o Colégio Plínio Barreto, no bairro da Mooca, ficou mais interessante. Em março de 1993 tivemos um concurso de músicas e entre os gêneros estava o do Samba Enredo. Claro que participei. E descobri assim outros alunos que também amavam esse mundo. Compartilhei com eles minhas ideias e quatro ficaram interessados em fazer parte de nossa disputa. Era o Átila, o Fausto, a Priscila e a Fernanda. A Denise, minha vizinha já sabia da nossa invenção e então nos ajudou a espalhar a novidade.
No dia 30 de março, um menino chamado Leonardo, me pediu para fazer o estandarte de sua escola. Em casa desenhamos juntos e estava fundada a Unidos da Pauliceia. Mostramos como se faziam os bonecos de papel e assim espalhamos para os interessados em participar no nosso Carnaval. O sonho parecia ter morrido por alguns meses mas no meio de agosto resolvemos colocar em prática nossa paixão. O meu primo Fernando e eu, pensamos em criar outra escola. Já tínhamos os bonecos prontos e então era só fazer o enredo e o samba para o desfile.
Mas o problema foram as cores. Ele queria Verde e Branco de novo e eu queria as cores da minha Salgueiro. Então chegamos a um impasse. E decidimos cada um criar a própria escola. Assim, no fim da tarde do dia 28 de agosto nasceu a Bafo do Tatu e a noite foi a vez da Falcão Imperial, vermelha e branca tal qual a escola da Tijuca.
Tínhamos então até aquele momento cinco escolas. Convencemos os nossos vizinhos a cada um, criar uma escola. Assim seriam sete e já estaria de bom tamanho o desfile.
Me escolheram como o compositor dos sambas. Porque eles achavam que eu era o único que sabia compor. Já tinha feito os sambas da Sapodouro, da Mooca, Pauliceia, Falcão e Bafo. Denise criou a Bodas de Prata e o seu irmão Lucas no dia seguinte criou a Engenho do Rei.
Nesse mesmo dia, forçamos nossos amigos a decidir se iam participar ou não. Reunidos no pátio da escola, com cadernos e canetas criamos juntos as escolas que faltavam para completar o Carnaval.
Priscila criou a Imperador da Ponte, já que ela morava na Zona Norte de São Paulo. A Armênia foi criada por Átila, vizinho dela e como eram namorados de infância até as cores escolhidas foram iguais. Já tínhamos a Imperador da Ponte, Azul e Branca. O convencemos a mudar o tom. Por isso a Armênia usa o Azul escuro na bandeira. Fausto criou a Unidos de São Luiz. Ele era de Florianópolis e morava no Jardim São Luiz, zona sul de São Paulo. Por isso o nome. Já as cores e o símbolo vêm do Criciúma, seu clube de coração. Fernanda criou a União de São Joaquim, seguindo o pensamento de Fausto. Ela morava no bairro de mesmo nome e como não tinha time, sugerimos as cores do Brasil. Ela decidiu pelo Verde e Amarelo. Um menino chamado José, queria participar e criou a Imperador de Bauru. Era de onde ele tinha vindo e as cores eram o Verde e o Vermelho. A gente chamava ele de Gamurrinho, por causa de um poema que leu em sala de aula. Ali mesmo foram escolhidos os temas e no dia seguinte o 31 criei os sete sambas que faltavam.
Mas tínhamos um problema. Os meninos não queriam que nem a Mooca ou a Sapodouro participassem pois já estávamos com uma escola cada. Concordamos mas não queríamos abrir mão de nossas primeiras invenções. Entao decidimos fazer o desfile principal mais um de acesso. Assim, quem caísse assumia a direção das que subiam. Mas só duas escolas no acesso não daria certo. Quatro era melhor. Assim duas subiam e duas desciam. Átila e Priscila criaram a Vera Cruz e a Império de Cristal. Escolheram o bairro do Glicério para as escolas. E Fausto criou a União Sambista e Fernanda a Monte Azul.
Os bairros tinham que ser diferentes para que todas as regiões estivessem presentes. Decidimos que a Bodas seria do Pacaembu, por que era perto da Barra Funda ( Camisa Verde e Branco) e a Sambista do Bexiga ( Vai-Vai). Para não termos só uma escola de fora, a Monte Azul representaria Osasco. A Engenho seria de Santana.
No final, tínhamos duas escolas fora da capital, cinco da Zona Leste, três da Zona Norte, três da Zona Sul, uma da Zona Oeste e duas do Centro.
Estava formado o primeiro FESTIVAL. Dez no grupo especial e seis no grupo acesso. As escolas que subissem seriam dirigidas por quem desceu. E na maior parte das vezes até hoje é assim.
Nos dias 1 e 2 de setembro compus os sambas restantes. E na sexta e sábado a tarde, fizemos o primeiro desfile. Quem não tinha boneco, pegou emprestado com a gente. A partir dali, nós faríamos toda a indumentária das escolas seguindo o que os responsáveis queriam. A escolha de enredo era deles e o projeto também. Mas a gente, da Mooca é que confeccionaria a base das escolas. Foi muito bom aquele momento. Nascia ali um projeto que já dura vinte cinco anos. E se hoje, eles estão afastados desse mundo, as entidades que criaram estão presentes. Outros responsáveis, outros presidentes, mas a essência jamais se perderá.
Campeã do 1° Festival
- SETEMBRO de 1993 -



