quarta-feira, 16 de maio de 2018

Infância Precoce ou as Noites Insones embaladas pelo Samba. - Jubileu de Prata: 25 anos das Escolas de Samba de Maquete da GRESA




A primeira memória que me lembro é do berço. Era noite e eu chorava. E nada que minha mãe fazia conseguia me acalmar. Não era fome. Não estava me sentindo só e nem tinha necessidades de ser limpo. Era noite de Carnaval. Como eu poderia dormir se algo que ouvia da televisão me chamava?  

Depois de inúmeras tentativas frustradas para eu voltar a adormecer,  meus pais decidiram me levar pra sala até eu novamente pegar no solo. Contou-me anos mais tarde a minha mãe, que eu fiquei sentado na frente de uma televisão mal sintonizada e quase em preto e branco assistindo ao meu primeiro desfile de escola de samba. Não saberia dizer qual escola tinha me acordado. Mas gosto de imaginar que tenha sido o Salgueiro ao som de Skindô, Skindô. 

Não dormi mais aquela noite e durante as noites de Carnaval, algo que raramente fiz, foi deixar de acompanhar um desfile( cochilei em três, faltou luz em um dia, passei mal em dois desfiles e fiz outras coisas em quatro outros). Lembro-me de ver o desfile da Portela em 85 e assim aprendi a não brincar com fogo, para não me queimar. A Águia me enfeitiçou ( até hoje ela me encanta), claro que por uma paixão herdada de minha mãe. 

Cresci portelense mas quando amadureci me vi Salgueiro. Claro que morando em São Paulo só poderia torcer para uma escola: Camisa Verde e Branco. Lembro-me de ver a Barra Funda cantando de manhã, dando boa noite à São Paulo e com Samdolar finalmente vencendo o tri da Vai Vai (odiava aquela escola, hoje a admiro muito). Claro que lembro dos grandes desfiles da Peruche, uma fraca Nenê, a Barroca forte, Rosas com Paulo Machado, Leandro surgindo e a Mocidade Alegre que não me encantava assim como no Rio a Beija-flor e a Tijuca. Falando na cidade maravilhosa, adorei o Ti-ti-ti da Estácio, a Bandeira Branca da Imperatriz, a voz de Ney Vianna da Mocidade e sua bateria, Vila e Martinho. A União com o porre de felicidade, uma Império fraca mas ainda especial, desfiles irreverentes da Caprichosos e claro, como todo filho de portelense, tinha que não gostar da Mangueira e ficar quieto na passagem do Salgueiro, sem saber que já estava apaixonado. 

Aguardava ansioso os meses de outubro e novembro, para ganhar de meu pai, um LP ou a fita cassete para escutar e aprender os sambas. Sintonizava as rádios que tocavam pagodes e com uma fita virgem gravava os sambas de enredo. Já sabia de história do Brasil e aos sete ainda não tinha pisado na escola. 

A década virou e com ela uma mudança. Deixei minha casa na Rua Miguel de Guevara, 103 no Diadema para conhecer o bairro da Mooca, na Rua Voltolino ,13. A mudança deu-se pela perda de minha bisavó. Meus pais e minha avó, também estavam preocupados com a violência da Zona Sul de São Paulo e por isso tudo nos mudamos. Vi Mocidade ser bi-campeã e minha Camisa cada vez mais forte. Mas 1991 foi um ano muito importante. Foi um desfile de São Paulo maravilhoso e um ano onde o Rio estava incrível. Chuê-chuá, Didi um poeta, o Alô, alô da Caprichosos e claro que lembro de ajudar a limpar a casa com minha mãe com uma Portela muito vaidosa. Mas na madrugada de Carnaval, meu coração se deixou levar por uma Rua . Era a Ouvidor nas cores vermelha e Branca do Salgueiro. A Mocidade levantou, mas o que me marcou foi ela. Pedi desculpas a minha mãe e declarei meu amor eterno. 

Aí para que esperar o Carnaval? Eu durante as madrugadas fingia estar na avenida e ia lembrando dos desfiles que vivi e aqueles outros que não assisti, mas que eu conheci através dos Lps. Meu quintal era grande, então era perfeito para cantar e dançar. Assim eu era mestre sala, porta bandeira, bateria, puxador, destaque, empurrador de carro, arquibancada e alegoria. Era tudo dentro da imaginação. Lembro que a última noite de minha avó foi rindo de um de meus inúmeros desfiles. 

Mas em 1992, com meu primo vindo morar conosco, a ideia de fazer a própria escola surgiu. 

Foi um fim de ano maravilhoso, porque o cassete do Rio de Janeiro trazia músicas antológicas e São Paulo devido ao roubo do início do ano vinha com dois Lps. Além do Especial vinha o do grupo de Acesso. E eu que assistira a Cnt com o desfile do grupo acesso de 1992, agora teria quatro dias para acompanhar as escolas. Imaginei como seriam os desfiles e até que próximo ao Natal tivemos a ideia, meu primo e eu, de criar a nossa própria. 

Primeiro o nome. Morávamos na Mooca então Unidos seria perfeito. As cores é que deram problema. Mas como eu gostava da Camisa e ele da Mocidade Independente, então verde e branco era a escolha mais certa. Assim nasceu a Unidos da Mooca, em 22 de dezembro de 1992. 

Nossos vizinhos da casa da frente, gostaram de nos ver criando a escola. Era de papel. Não tínhamos acesso a estes bonecos de maquete, então tínhamos que criar do papel mesmo. Denise queria fazer isso também e me lembro que brincando na casa dela no dia 01 de janeiro de 1993, vimos um sapo que ela tinha ganho que abria e fechava a boca. Ela e o irmão deram o nome de Sapodouro. Lucas escolheu as cores vermelha e amarela. Marcamos o dia do desfile e preparamos a nossa escola e eles a deles. Foi na quinta feira e como eles usariam bonecos de brinquedo, usamos todos os nossos Playmobils e bonecos de guerra para montar as alas. A música da Mooca foi uma que a Eliana de Lima cantava. E a Sapodouro usou o da Viradouro de 1992. 

Não teve vencedor. Foi apenas diversão. Foi a nossa base de Carnaval. Um dia depois estávamos assistindo na Cnt o primeiro dia do grupo de acesso do Rio. Mas estávamos pensando em algo maior. Estávamos pensando em fazer um Carnaval nosso, mas teriam que ter regras e material específico. Falamos sobre utilizar papel enquanto víamos a Cubango desfilando. 

Saudade destes velhos tempos. Quando toda nossa preocupação eram as tarefas de casa, as provas e agora a data do primeiro desfile. 

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